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Depressão CID: o que significam F32, F33 e os níveis de gravidade

O código da depressão não é um só — e o número depois do ponto muda mais do que as pessoas imaginam. Entender essa lógica evita duas leituras erradas: achar que o código é uma sentença, e achar que ele mede o tamanho do seu sofrimento.

Dr. Thiago Westmann
Dr. Thiago WestmannMédico especializado em Psiquiatria · CRM-SP 183.407 · ~10 min de leitura
Depressão CID: o que significam os códigos F32 e F33 no atestado médico

Depressão CID: por que existem vários códigos, e não um só

Quem procura por depressão CID quase sempre está com um atestado na mão e um código que ninguém explicou. A primeira coisa a saber é que não existe um código único.

No CID-10, os quadros de humor ficam concentrados no bloco F30 a F39 — transtornos do humor (afetivos). A depressão não ocupa um único código ali dentro: ocupa um conjunto, e cada um descreve uma situação diferente.

Os quatro que mais aparecem em atestado e laudo:

CódigoO que descreve
F32Episódio depressivo — o episódio atual, isolado ou primeiro
F33Transtorno depressivo recorrente — histórico de episódios repetidos
F34.1Distimia — humor depressivo crônico, de longa duração
F41.2Transtorno misto ansioso e depressivo — fica entre os transtornos ansiosos

Essa granularidade não é burocracia. Ela existe porque episódio único, quadro recorrente e humor cronicamente rebaixado se comportam de formas diferentes ao longo do tempo, e isso muda o acompanhamento.

Se a sua dúvida é sobre o que é o CID em geral, sobre a transição para a CID-11 ou sobre a regra que permite pedir que o código não conste do atestado, isso está detalhado no guia sobre o CID da ansiedade — as regras valem igualmente aqui.

F32, F33 e F34.1: qual é a diferença

F32 — episódio depressivo. É o código do episódio atual, quando não há histórico documentado de episódios anteriores. Um primeiro episódio recebe F32, mesmo que venha a se repetir depois.

F33 — transtorno depressivo recorrente. Pelos critérios da CID-10, exige o registro de pelo menos dois episódios depressivos, cada um com duração mínima de duas semanas, separados por um intervalo de pelo menos dois meses sem sintomas relevantes. É o intervalo entre os episódios que distingue “recorrente” de “um episódio que se arrastou”.

F34.1 — distimia. Aqui a lógica é outra: não são episódios, é um estado. Pelo critério da CID-10 para distimia, é um humor depressivo persistente, de intensidade leve a moderada, com duração mínima de dois anos, sem preencher os critérios de episódio depressivo na maior parte desse período. É o quadro que as pessoas costumam descrever como “sempre fui assim, meio para baixo” — e que justamente por isso demora a ser identificado.

F41.2 — transtorno misto ansioso e depressivo. Usado quando sintomas de ansiedade e de depressão convivem sem que nenhum dos dois, isoladamente, atinja critério pleno. Quando ambos atingem critério próprio, o correto não é o F41.2: são dois códigos registrados separadamente.

Se o que você procura é o panorama dos quadros em si, e não dos códigos, o texto sobre tipos de depressão cobre esse lado.

A gradação dentro do próprio código

Esta é a particularidade que separa os códigos de depressão dos demais: a gravidade está embutida no quarto dígito.

Antes da gradação, o critério de base. Segundo os critérios diagnósticos da CID-10, um episódio depressivo requer a presença de pelo menos dois dos três sintomas nucleares — humor deprimido, perda de interesse ou prazer (anedonia) e redução de energia com fadiga — somados a pelo menos dois sintomas acessórios, por um período mínimo de duas semanas.

Entre os acessórios estão alteração de apetite e de peso, alterações do sono, agitação ou lentificação psicomotora, sentimentos de inutilidade ou culpa, dificuldade de concentração e ideação suicida.

CódigoQuadroLeitura funcional
F32.0LeveMenos sintomas; a pessoa em geral mantém suas atividades, com sofrimento
F32.1ModeradoMais sintomas; prejuízo já relevante no trabalho e na vida social
F32.2Grave sem sintomas psicóticosQuadro intenso, prejuízo importante, sem delírios ou alucinações
F32.3Grave com sintomas psicóticosQuadro grave acompanhado de delírios ou alucinações

Classificação conforme a CID-10 (Organização Mundial da Saúde).

O F33 espelha essa mesma gradação — F33.0 leve, F33.1 moderado, F33.2 grave sem sintomas psicóticos, F33.3 grave com sintomas psicóticos — e acrescenta o F33.4, que indica quadro recorrente atualmente em remissão.

Esse detalhe responde a uma pergunta comum: F33 não significa “mais grave” que F32. “Recorrente” descreve o padrão ao longo do tempo, não a intensidade do episódio de agora. Alguém com F33.0 está num episódio leve de um quadro que já se repetiu; alguém com F32.2 está num primeiro episódio grave.

Por que o código muda de uma consulta para outra

Essa é a dúvida que costuma gerar mais desconfiança — “mudou o código, então erraram antes?” — e a resposta é a mesma que dou no consultório.

O código descreve o episódio no momento da avaliação, não a pessoa. Ele é uma fotografia, não uma certidão.

Por isso é esperado que ele se mova. Alguém avaliado em F32.1 pode, meses depois, ser registrado como F33.4 — quadro recorrente, atualmente em remissão. Alguém que começou com um diagnóstico de reação a um evento estressor pode ter o registro atualizado à medida que o quadro se define. A própria estrutura do CID foi desenhada para permitir isso: os subcódigos existem justamente para registrar estágios diferentes da mesma condição.

Mudança de código costuma refletir acompanhamento funcionando, não erro anterior.

Como o médico chega até o código

Vale desfazer uma expectativa frequente: não existe exame de sangue que diagnostique depressão. O diagnóstico é clínico, construído na entrevista e no exame do estado mental — é o que informa o próprio Ministério da Saúde na página oficial sobre a condição.

O que entra nessa avaliação:

Essa última etapa é a que costuma surpreender quem chega esperando sair da primeira consulta com uma receita. Ela é o que separa tratar uma depressão de deixar passar outra coisa.

Na minha prática em Mogi das Cruzes, a avaliação inicial leva o tempo que precisa levar, e a hipótese é explicada ao paciente: em que ela se baseia, o que ainda está em aberto e o que muda conforme a evolução. O código é o registro dessa conversa, não o substituto dela. Sobre o que vem depois do diagnóstico, o texto sobre tratamento para depressão traz o panorama.

Quando o código termina em “outros” ou “não especificado”

Além das subdivisões de gravidade, o F32 e o F33 têm duas terminações que confundem quem as encontra no papel: “outros episódios depressivos” e “episódio depressivo não especificado”.

Elas não indicam um quadro pior nem um quadro atípico no sentido popular. Indicam duas situações administrativas diferentes:

Ou seja: em muitos casos esse final de código diz mais sobre o estágio da avaliação do que sobre a pessoa. É esperado que ele seja substituído por um código mais preciso conforme o acompanhamento avança — o que nos leva ao ponto anterior, o de que o código se move.

O que o código muda — e o que não muda — no tratamento

Uma leitura equivocada e muito comum é imaginar que o código determina a conduta: F32.0 significaria um caminho, F32.2 outro, como se houvesse uma tabela.

Não é assim que funciona. O código é um registro classificatório; ele resume o que a avaliação concluiu, mas não substitui os elementos que de fato orientam a conduta:

Por isso duas pessoas com o mesmo código podem sair da consulta com planos diferentes, e as duas condutas estarem corretas. E é por isso também que decidir o tratamento a partir de um código lido na internet, sem avaliação, tende a dar errado nos dois sentidos — tanto por excesso quanto por insuficiência.

O que o código faz bem é outra coisa: organizar prontuário, permitir estatística de saúde, dar continuidade quando outro profissional pega o caso e sustentar documentos como atestado e laudo. São funções reais e importantes — só não são clínicas.

Depressão e ansiedade juntas: existe um código só?

Existe, mas ele é mais estreito do que parece.

O F41.2 se aplica quando os dois grupos de sintomas coexistem sem que nenhum atinja, sozinho, o critério pleno de diagnóstico independente. É um código para quadros mistos de menor intensidade — não um atalho para “tenho os dois”.

Quando ansiedade e depressão estão presentes cada uma com intensidade diagnóstica própria, o registro correto são dois códigos separados — por exemplo, F32 junto de F41.1. Não é duplicação: é a descrição precisa de duas condições que coexistem. O detalhe dos códigos de ansiedade está no guia sobre o CID da ansiedade.

Sobre a escala de dias de afastamento

Circula na internet uma tabela que associa cada subcódigo a um número de dias de atestado — leve tantos dias, moderado tantos, grave acima disso.

Essa tabela não tem lastro. Não há, nas normas médicas e previdenciárias hoje vigentes, uma tabela oficial que vincule dias de afastamento a código CID.

A duração de um afastamento é decisão clínica do médico assistente, tomada caso a caso, com base no quadro funcional daquela pessoa: o que ela precisa para se tratar, quanto tempo a resposta ao tratamento costuma levar, quais são as exigências concretas do trabalho dela. Duas pessoas com o mesmo F32.1 podem receber afastamentos bem diferentes, e as duas condutas podem estar certas.

Quem chega à consulta com essa tabela na cabeça costuma sair frustrado de um jeito evitável — por isso vale dizer com clareza que ela não tem base normativa. O funcionamento real do atestado psiquiátrico e do afastamento por saúde mental está detalhado nesses dois textos.

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Perguntas frequentes

Não é um só. F32 para o episódio depressivo, F33 para o transtorno depressivo recorrente, F34.1 para a distimia e F41.2 para o transtorno misto ansioso e depressivo. O quarto dígito indica a gravidade do episódio atual.

Não. F33 indica que houve episódios anteriores, não que o episódio atual seja pior. Os dois códigos têm a mesma escala de gravidade no quarto dígito, e o F33.4 indica justamente um quadro recorrente em remissão.

Nenhum número está vinculado ao código. A duração do afastamento é decisão clínica individual, baseada no quadro funcional — não no subcódigo.

Nenhum código, sozinho, garante benefício. O INSS avalia a incapacidade laboral documentada, verificada em perícia médica; o código entra como parte da documentação, não como critério automático. Requisitos, carência e enquadramento são terreno de orientação jurídica previdenciária.

Não. O código descreve o episódio atual, e é esperado que ele acompanhe a evolução do quadro.

Sim: o diagnóstico não é requisito de validade do atestado, e a inclusão do código depende da autorização do paciente — conforme as orientações do Conselho Federal de Medicina sobre o preenchimento de atestados.

Dr. Thiago Westmann
Dr. Thiago Westmann
Médico especializado em Psiquiatria · CRM-SP 183.407

Médico especializado em Psiquiatria em Mogi das Cruzes e região do Alto Tietê. Com formação em Medicina, Educação Física e Psicologia, atende com escuta sem pressa e cuidado baseado em evidências. Atendimento presencial e por telemedicina.

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