Quando procurar um psiquiatra: 3 critérios | Dr. Westmann
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Quando procurar um psiquiatra: como saber se o que você sente já passou do ponto

Este texto não é mais uma lista. É a resposta para a pergunta que fica depois da lista: como eu sei que o meu caso passou do ponto? Saber quando procurar um psiquiatra não é reconhecer um sintoma numa lista — é entender o que ele já fez com a sua vida.

Dr. Thiago Westmann
Dr. Thiago WestmannMédico especializado em Psiquiatria · CRM-SP 183.407 · ~14 min de leitura
Dr. Thiago Westmann, médico especializado em Psiquiatria em Mogi das Cruzes

Você já deve ter lido alguma lista por aí. “10 sinais de que você precisa de um psiquiatra.” “6 sinais de alerta.” Listas assim têm um problema: você chega ao final marcando 3 de 10 itens e continua exatamente onde começou — sem saber se isso é o suficiente.

A pergunta por trás da pergunta: "isso é normal ou já é demais?"

No consultório, quase ninguém chega dizendo “acho que tenho depressão” ou “acho que tenho um transtorno de ansiedade”. Chega dizendo outra coisa: “não sei se isso que sinto é coisa grande ou se estou exagerando.” “Todo mundo tem dia ruim, né?” “Será que não é só estresse?”

Essa dúvida não é frescura — é, na verdade, o retrato exato de um fenômeno que a pesquisa em saúde mental já mediu. Um estudo com quase 3 mil adultos de São Paulo encontrou que, entre pessoas que tinham algum transtorno mental nos últimos 12 meses, só 23% haviam recebido algum tipo de tratamento. E o motivo mais citado para não buscar ajuda não foi dinheiro, nem falta de médico: foi achar que não precisava (Coêlho et al., 2021).

E mesmo entre quem chega a reconhecer que precisa de ajuda, há um segundo filtro: numa pesquisa internacional que inclui o Brasil, entre as pessoas que perceberam a necessidade e ainda assim não buscaram atendimento, o motivo mais citado — por 69,4% delas — foi querer resolver o problema sozinha (Orozco et al., 2022).

A barreira nº 1 para procurar um psiquiatra não é acesso. É a própria pessoa concluir, sozinha, que aquilo “não é motivo suficiente” — ou que dá para dar conta por conta própria.

E é justamente essa conclusão que costuma estar errada — porque ninguém deveria ter que decidir isso sozinho, com base numa lista de sintomas da internet.

Quando procurar um psiquiatra: o critério que usamos de verdade

Aqui está o que quase nenhum conteúdo sobre o tema explica: o psiquiatra não decide se algo “é grave” contando sintomas. Ele olha para três coisas, nessa ordem.

Há quanto tempo isso acontece? Não é sobre um dia ruim, uma semana puxada, uma fase de cansaço depois de um projeto difícil. Na formulação usada pela psiquiatria para a maioria dos quadros descritos no DSM-5-TR, o manual de referência da especialidade, fala-se em humor deprimido ou perda de interesse presente na maior parte do dia, quase todos os dias, por pelo menos duas semanas — no caso de um episódio depressivo. Já uma preocupação excessiva e difícil de controlar, típica do transtorno de ansiedade generalizada, costuma ser considerada quando persiste por seis meses ou mais. O relógio importa. Ele separa sofrimento passageiro de um quadro que se instalou.

Quanto isso dói? É o segundo eixo: sofrimento clinicamente significativo. Não é “um jeito de ser” nem uma característica de personalidade — é a pessoa efetivamente sofrendo com aquilo, todos os dias.

O que isso já tirou de você? Este é o eixo mais fácil de enxergar, porque é concreto: o rendimento no trabalho caiu, faltas aumentaram, você não consegue mais terminar o que começa. As relações azedaram — brigas por bobagem, isolamento, afastamento de quem você gosta. O autocuidado desmoronou: sono, alimentação, higiene, aquilo que antes dava prazer. O corpo dói de um jeito que os exames não explicam. Ou você passou a usar álcool ou qualquer outra coisa só para “dar conta do dia”.

2 semanasDuração mínima considerada na formulação de um episódio depressivo (DSM-5-TR)
6 mesesPersistência típica considerada no transtorno de ansiedade generalizada (DSM-5-TR)
3 eixosDuração, sofrimento e prejuízo no funcionamento — o tripé da avaliação

É esse tripé — duração, sofrimento e prejuízo no funcionamento — que separa o que a psiquiatria chama de sofrimento humano normal de um transtorno que precisa de avaliação. Não existe um teste online, um questionário de sintomas ou uma pontuação mágica que substitua essa análise: mesmo instrumentos internacionais amplamente estudados e usados havia décadas em pesquisa clínica, como o WHODAS 2.0 da OMS, reconhecem, na própria literatura que os valida, que não há um “número de corte” clinicamente estabelecido (Federici et al., 2017). O que existe é a avaliação de um profissional, olhando para a sua história — não um teste que te diz sim ou não.

É por isso que costumo dizer, na prática do consultório, que a primeira consulta não é para “confirmar um diagnóstico que você já suspeita”. É para investigar essas três coisas com calma, sem pressa, e chegar a uma conclusão em conjunto com você.

Os sinais, na ordem em que o consultório costuma ver

Com o tripé em mente, alguns padrões aparecem com muito mais frequência do que os outros — e vale a pena falar deles na ordem em que realmente chegam ao consultório.

O corpo grita antes da mente admitir. É o padrão mais comum: a pessoa passa meses rodando entre cardiologista, gastroenterologista, endocrinologista — com exames normais — antes de considerar que aquele aperto no peito, aquele estômago embrulhado, aquela taquicardia sem explicação possam ter origem na ansiedade. Faz sentido buscar essa investigação: comorbidade física é regra, não exceção — um estudo com paulistanos encontrou dor crônica em quase metade das pessoas com transtorno de humor ou de ansiedade (Askari et al., 2017). Mas quando os exames vêm normais e o sintoma continua, vale considerar a hipótese que ainda não foi olhada. (Se é esse o seu caso, escrevi em detalhe sobre crise de ansiedade: sintomas e o que fazer.)

“Isso é ansiedade ou é infarto?” É uma variação do ponto anterior, tão comum que merece um parágrafo próprio: a crise de pânico chega parecendo emergência cardíaca — coração disparado, falta de ar, sensação de morte iminente. A pessoa vai ao pronto-socorro, o eletrocardiograma vem normal, ninguém explica direito o que aconteceu, e semanas depois a crise se repete. O ciclo — crise, PS, alta, dúvida, nova crise — é um dos padrões mais claros de que vale conversar com quem investiga esse tipo de quadro.

Depressão sem tristeza. Outro padrão que passa batido: a pessoa não chora, não se sente “triste” no sentido clássico — só perdeu a energia, o interesse, a vontade de fazer o que antes gostava. Como ela procura “tristeza” e não encontra, conclui que não é nada. E existe ainda a chamada depressão sorridente: quem trabalha, sorri, dá conta de tudo por fora, e esconde de todo mundo o que sente por dentro — inclusive de quem mora junto.

Confundido com esgotamento do trabalho. Quando o quadro nasce de uma rotina profissional tóxica — cobrança constante, ambiente hostil, exaustão que não passa nem no fim de semana — é comum chamar isso de burnout e parar por aí. Às vezes é isso mesmo. Às vezes o esgotamento evoluiu para um quadro depressivo, e a diferença importa para o tratamento.

A fase “boa demais para ser verdade”. Em quadros do espectro bipolar, existe um padrão sutil: a pessoa vive uma fase de energia, produtividade e disposição incomuns — e gosta tanto dela que não conta ao médico. O que chega ao consultório é só a queda depois. Sem contar a fase de cima, o quadro parece “depressão que não melhora com o remédio certo” — quando na verdade faltou metade da história.

Diagnóstico que demorou décadas para acontecer. É uma queixa muito comum, principalmente em TDAH adulto e em mulheres: uma vida inteira sendo chamada de “desorganizada”, “lenta” ou “sem força de vontade”, até que, adulta, a pessoa entende que aquilo tinha nome. Não é motivo para lamentar o tempo perdido — é motivo para agir agora.

Em todos esses casos, a régua continua a mesma: duração, sofrimento e o que já foi tirado da sua vida. Não é “ter um sintoma da lista”. É o sintoma ter passado a mandar na sua rotina.

Quando é agora — e quando dá para agendar com calma

Nem toda situação pede a mesma velocidade de resposta. Vale separar com clareza, porque confundir uma coisa com a outra custa tempo em um momento em que tempo importa.

Se há risco à vida agora

É hora de acionar o SAMU 192 ou ir ao pronto-socorro

Se há risco à vida agora — pensamento de suicídio com plano ou intenção, uma tentativa, agitação grave, um surto — isso não é hora de marcar consulta. É hora de acionar o SAMU, pelo 192, gratuito, 24 horas, em todo o Brasil, ou ir direto a um pronto-socorro. A equipe do SAMU atende esse tipo de crise e sabe para onde encaminhar.

Se o que dói agora é a vontade de conversar com alguém, imediatamente — angústia que não passa, pensamentos de morte, uma solidão que pesa demais — existe o CVV, pelo 188. Gratuito, 24 horas, todos os dias, por telefone, chat ou e-mail, com sigilo e anonimato garantidos. O CVV não substitui tratamento médico ou psicológico — é apoio emocional, feito por voluntários treinados, e existe exatamente para o momento em que ninguém deveria estar sozinho.

Se o quadro é grave mas não há risco imediato, o caminho é buscar avaliação médica em poucos dias — não em meses.

Se o tripé bateu, mas não há urgência — a resposta é agendar uma consulta, no ritmo que fizer sentido para você.

Se você reconheceu alguém nesse primeiro cenário, ou reconheceu a si mesmo, isso pesa: procure ajuda agora, pelos canais acima. Não é preciso descrever nada além disso para pedir socorro.

Psiquiatra, psicólogo ou neurologista: quem faz o quê

Uma das dúvidas mais comuns é por onde começar — e a resposta correta, na maioria das vezes, não é “escolher um em vez do outro”. (Se quiser ir mais fundo, expliquei o que faz um psiquiatra em outro texto.)

O psiquiatra é médico, com formação em Psiquiatria depois da faculdade de Medicina. É dele a competência de fechar um diagnóstico nosológico — aquele que segue os critérios clínicos internacionais — e de prescrever medicação quando ela for indicada. Também investiga o corpo: pede exames, revisa histórico de saúde, porque, como vimos, o sofrimento psíquico frequentemente vem acompanhado de queixas físicas.

O psicólogo trabalha o processo emocional e comportamental por meio da psicoterapia — o núcleo do seu trabalho — e faz avaliação psicológica, mas não prescreve medicamento nem fecha o diagnóstico nos moldes usados pela medicina. Isso não diminui o papel dele: é uma competência diferente, prevista em lei própria, e frequentemente é o psicólogo quem sustenta o processo terapêutico dia após dia.

O neurologista entra quando há suspeita de uma causa estrutural no sistema nervoso — uma crise convulsiva, um declínio cognitivo, uma dor de cabeça com sinais de alerta. Às vezes psiquiatra e neurologista dividem um mesmo caso, como em quadros de demência ou epilepsia.

PsiquiatraPsicólogo
FormaçãoMédico, com formação em Psiquiatria depois da faculdade de MedicinaFormação em Psicologia, com competência prevista em lei própria
Fecha diagnóstico nosológicoSimNão
Prescreve medicaçãoSim, quando indicadaNão
Investiga o corpo (exames, histórico)SimNão
Núcleo do trabalhoInvestigação clínica e decisão terapêuticaPsicoterapia e avaliação psicológica
Na prática, o modelo que mais funciona para muitos quadros não é escolher um profissional — é psiquiatra e psicólogo trabalhando em paralelo. Não é hierarquia. É complementaridade.

Um conduzindo a investigação clínica e a decisão terapêutica (que pode, ou não, incluir medicação), o outro conduzindo o processo psicoterápico.

"Vou sair de lá medicado?" — a objeção que ninguém enfrenta de frente

Esta é, talvez, a dúvida mais silenciosa de todas — a pessoa não fala isso em voz alta, mas é o que trava a decisão de marcar a consulta. E a resposta honesta é: depende do quadro, e a decisão nunca deveria ser automática.

A diretriz britânica NICE, referência internacional em tratamento de depressão e atualizada em 2022, é direta nesse ponto. Para o que ela chama de depressão “menos grave” — quadros leves ou abaixo do limiar clínico, identificados por escalas como o PHQ-9 com pontuação abaixo de 16 — a recomendação diz: o antidepressivo não deve ser oferecido rotineiramente como primeira linha de tratamento. Só deve ser oferecido se for a preferência informada da própria pessoa, depois de ela entender as alternativas.

E quais são essas alternativas, na mesma diretriz? Autoajuda guiada, terapia cognitivo-comportamental, ativação comportamental, exercício físico estruturado, terapia interpessoal. O antidepressivo aparece na lista — mas não no topo, e não como padrão automático.

Isso não significa que ninguém deva ser medicado. Em quadros mais graves, a combinação de psicoterapia com medicação entra entre as primeiras opções recomendadas, sempre sob decisão compartilhada entre médico e paciente. E é isso, aliás, o que sustento como método na prática do consultório: a medicação é uma ferramenta entre outras, não a única — e a escolha de usá-la, quando indicada, é sempre conjunta, depois de entender riscos, benefícios e alternativas com calma.

Os medos que travam a decisão

Além da dúvida sobre medicação, quatro medos aparecem com muita frequência antes de alguém procurar ajuda. Vale nomear cada um.

Estigma. “Psiquiatra é para louco” continua sendo a frase mais repetida — e ironicamente, ela mesma sustenta o problema que descreve. Uma revisão que reuniu 144 estudos e mais de 90 mil participantes encontrou que o estigma reduz, de forma mensurável, a busca por ajuda — com efeito mais forte entre minorias étnicas, jovens, homens, e também entre profissionais de saúde e das forças armadas (Clément et al., 2014).

O medo mais citado não é o diagnóstico em si: é que alguém descubra. Só que a matemática não fecha: segundo o IBGE (Pesquisa Nacional de Saúde, 2019), 10,2% dos adultos brasileiros relataram já ter recebido diagnóstico de depressão — cerca de 16,3 milhões de pessoas. Não é uma minoria isolada. É parte de quase todas as famílias.

“Vai virar vício.” Descontinuação de um antidepressivo não é a mesma coisa que dependência — dependência envolve fissura, busca compulsiva, escalada de dose, e não é isso que a literatura descreve aqui.

Uma meta-análise de 2024, publicada na Lancet Psychiatry e com mais de 21 mil pacientes, encontrou sintomas ao interromper o remédio em cerca de 31% dos casos — mas 17% de quem tomou apenas placebo relatou sintomas parecidos, o que sugere que boa parte do desconforto não é específica da substância; casos graves foram raros, perto de 3 em cada 100 (Henssler et al., 2024). Um estudo mais recente, de 2025, na JAMA Psychiatry, foi além: quando o humor piora várias semanas depois de parar a medicação, o mais provável não é abstinência — é a depressão voltando (Kalfas et al., 2025).

Dito isso, a discussão não está fechada: outra revisão descreve quadros de retirada mais persistentes com algumas classes de antidepressivo, mesmo com redução lenta da dose (Cosci & Chouinard, 2020). A conclusão prática, que atravessa os dois lados: nunca interromper um remédio psiquiátrico por conta própria. O desmame, como o início, é decisão conjunta com quem acompanha o caso.

“Não é falta de fé.” Muitos pacientes relatam que a fé foi parte importante da recuperação — e isso merece ser acolhido, não descartado. Fé e tratamento não competem; costumam caminhar juntos. O ponto de atenção aparece quando a certeza da cura leva a interromper sozinho um estabilizador de humor ou qualquer outra medicação de uso contínuo, sem conversar com quem prescreveu. É um padrão conhecido, sobretudo em transtorno bipolar: parar a medicação de estabilização por conta própria — mesmo motivado por uma melhora genuína e por fé genuína — pode trazer de volta episódios que levaram anos para se estabilizar.

“Isso é frescura.” Não é. Um estudo com paulistanos mediu o custo real da depressão em gasto de saúde incremental: R$ 308,28 por ano (em valores de 2015), a mais do que quem não tem o transtorno — valor maior do que o associado a hipertensão ou diabetes (Chiavegatto Filho et al., 2015). Sofrimento psíquico tem critério clínico definido e custo mensurável. Não é fraqueza de caráter.

Como é o atendimento: presencial ou por teleconsulta

Decidido que vale investigar, sobra a parte prática: como a consulta acontece — e aqui há um ponto que quase ninguém explica com precisão.

O caminho direto é agendar uma consulta — e, se a dúvida for como escolher o profissional, reuni os critérios em como saber se o psiquiatra é bom.

E há a teleconsulta — um dos pontos que menos aparece explicado com precisão nesse assunto. A Lei nº 14.510/2022, que regulamenta a telessaúde no Brasil, assegura ao profissional de saúde liberdade e independência para decidir sobre o uso da telessaúde, inclusive em relação à primeira consulta (Art. 26-C). E a resolução do Conselho Federal de Medicina que trata de telemedicina, vigente na data de publicação deste texto, detalha essa possibilidade: o estabelecimento da relação entre médico e paciente pode acontecer de forma virtual já na primeira consulta, desde que sejam cumpridas as condições técnicas e as boas práticas médicas (Res. CFM nº 2.314/2022, Art. 6º, §3º). Ou seja: sim, a primeira consulta de psiquiatria pode ser online.

Isso não significa que o presencial deixou de importar. A mesma resolução trata a consulta presencial como padrão-ouro e a telemedicina como recurso complementar; determina que a primeira consulta virtual dê seguimento com acompanhamento presencial; e, em quadros crônicos — o que costuma ser o caso em saúde mental —, exige consulta presencial em intervalos de no máximo 180 dias. Médico e paciente também podem, a qualquer momento, optar por interromper o atendimento a distância e seguir presencialmente.

Sobre receitas de medicamentos de controle especial por telemedicina: existe regra para a forma da prescrição a distância — identificação do médico e do paciente, registro em prontuário e assinatura digital certificada —, mas a camada que regula especificamente esse tipo de medicamento está em transição regulatória em 2026, com um novo sistema de controle de receituário sendo implementado pela Anvisa. Na prática, o que vale para o seu caso é o que o seu médico avaliar na consulta.

Para quem está em Mogi das Cruzes e região do Alto Tietê, atendo tanto presencialmente quanto por teleconsulta, seguindo exatamente essas regras. Outras dúvidas frequentes sobre a consulta estão reunidas em 30 perguntas respondidas pelo psiquiatra.

Nunca é tarde

É uma queixa muito comum entre pacientes: descobrir, aos 30, 40 ou depois dos 50 anos, que aquilo que carregaram a vida inteira tinha nome — e sentir que perderam tempo demais. É um sentimento legítimo, e não vou dizer que ele não faz sentido.

O que posso dizer é o seguinte: o tripé que abre este texto — duração, sofrimento, prejuízo funcional — não tem prazo de validade. Ele se aplica da mesma forma aos 25 e aos 65 anos: quando procurar um psiquiatra é uma pergunta de critério, não de idade. Não existe uma idade em que “já não vale mais a pena avaliar”. Vale sempre. Nunca é tarde para ser avaliado — mesmo que o caminho até aqui tenha sido mais longo do que deveria.

Escrito com base em pesquisa clínica e diretrizes atuais, este conteúdo tem finalidade informativa e não substitui avaliação médica individual. Nenhuma informação aqui deve ser usada para autodiagnóstico ou automedicação.

Este texto não faz autodiagnóstico nem indica conduta para casos específicos. Onde a literatura diverge (como no debate sobre sintomas de descontinuação de antidepressivos), isso foi indicado explicitamente no corpo do texto.

✔ Revisado por Dr. Thiago Westmann · CRM-SP 183.407 · atualizado em julho de 2026

Referências científicas

  1. Coêlho BM et al. Tratamento de transtornos mentais e barreiras percebidas — Braz J Psychiatry (n=2.942, São Paulo), 2021.
  2. Orozco R et al. Barreiras à busca de tratamento em saúde mental — J Affect Disord (WMH Surveys, inclui Brasil), 2022.
  3. American Psychiatric Association. DSM-5-TR — critério de significância clínica e durações mínimas (2 semanas em depressão; 6 meses em TAG), 2022.
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  1. Federici S et al. WHODAS 2.0 — revisão sistemática (810 estudos / 94 países): não há nota de corte clinicamente estabelecida. Disabil Rehabil, 2017.
  2. Askari MS et al. Dor crônica em pessoas com transtorno de humor (~49%) e de ansiedade (~45%) — J Affect Disord (n=5.037, São Paulo), 2017.
  3. CVV — Ligue 188: gratuito, 24h, todo o território nacional, telefone/chat/e-mail, com sigilo e anonimato.
  4. Ministério da Saúde. SAMU 192 — atendimento a emergências, inclusive crises psíquicas.
  5. NICE — National Institute for Health and Care Excellence (Reino Unido). Depression in adults: treatment and management (NG222), rec. 1.5.3, 2022.
  6. Clément S et al. O impacto do estigma na busca de ajuda — Psychol Med (144 estudos, 90.189 participantes), 2014/2015.
  7. IBGE — Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) 2019: 10,2% dos adultos brasileiros relataram diagnóstico de depressão (≈16,3 milhões de pessoas).
  8. Henssler J et al. Sintomas de descontinuação de antidepressivos — Lancet Psychiatry (79 estudos, 21.002 pacientes), 2024.
  9. Kalfas M et al. Piora de humor semanas após a interrupção indica recaída, não abstinência — JAMA Psychiatry (50 estudos, 17.828 participantes), 2025.
  10. Cosci F, Chouinard G. Contraponto: quadros de retirada persistentes com algumas classes de antidepressivo, mesmo com desmame lento — Psychother Psychosom, 2020.
  11. Chiavegatto Filho ADP et al. Custo incremental anual da depressão: R$ 308,28/pessoa (valores de 2015) — BMC Public Health (São Paulo), 2015.
  12. Brasil. Lei nº 14.510/2022, Art. 26-C — liberdade do profissional para decidir sobre telessaúde, inclusive na 1ª consulta.
  13. Conselho Federal de Medicina. Res. CFM nº 2.314/2022, Art. 6º — consulta virtual na 1ª consulta; presencial é padrão-ouro; presencial obrigatório a cada 180 dias em quadro crônico.
  14. Conselho Federal de Medicina. Res. CFM nº 2.314/2022, Art. 13 — regras de prescrição a distância (identificação, prontuário, assinatura digital).
  15. Brasil. Lei nº 12.842/2013 (Lei do Ato Médico) — diagnóstico nosológico e prescrição terapêutica privativos do médico; ressalva de competências do psicólogo.

Perguntas frequentes

O psiquiatra é médico e pode fechar diagnóstico nosológico e prescrever medicação; o psicólogo conduz a psicoterapia e a avaliação psicológica. Muitos quadros são melhor cuidados com os dois trabalhando em paralelo, não em competição.

Não necessariamente. Diretrizes internacionais recomendam que, em quadros mais leves, outras abordagens sejam consideradas antes do antidepressivo como primeira escolha. A decisão sobre medicar (ou não) é sempre conjunta, feita depois de entender o seu caso.

Sim. A Lei nº 14.510/2022 assegura essa possibilidade, inclusive na primeira consulta, e a resolução do CFM que regula a telemedicina no Brasil, vigente na data de publicação deste texto, detalha as condições. O presencial continua sendo o padrão-ouro, e casos crônicos exigem consulta presencial pelo menos a cada 180 dias.

Existe regra para a forma da prescrição a distância, mas a regulação específica para medicamentos de controle especial está em transição em 2026. O que vale para o seu caso depende da avaliação feita na consulta.

Varia entre profissionais, mas uma boa primeira consulta de psiquiatria costuma levar mais tempo do que uma consulta clínica padrão — justamente porque exige investigar história, contexto e corpo, não só marcar sintomas numa lista.

Vale levar exames recentes, se tiver, uma lista de medicações em uso (inclusive as que você toma por conta própria) e, se possível, anotar há quanto tempo o que você sente começou.

O sigilo profissional é um dos pilares éticos da medicina. Em teleconsulta, a resolução do CFM exige ainda consentimento informado sobre o uso e o compartilhamento de dados.

Sim, isso costuma ser bem-vindo, especialmente em uma primeira avaliação — desde que você se sinta confortável com a presença dessa pessoa.

Descontinuação não é dependência. A maioria dos sintomas ao parar é leve e passageira, e uma parte relevante do desconforto relatado nem é específica do remédio. Mas a interrupção precisa sempre ser conduzida junto com quem prescreveu — nunca por conta própria.

A régua para saber quando procurar um psiquiatra é essa. Observe os três eixos: há quanto tempo isso dura, o quanto isso dói, e o que isso já tirou de você — no trabalho, nas relações, no autocuidado. Quando a resposta às três deixa de ser “nada”, vale conversar com um profissional.

Não. O critério de avaliação não muda com a idade. Nunca é tarde para ser avaliado.

Dr. Thiago Westmann
Dr. Thiago Westmann
Médico especializado em Psiquiatria · CRM-SP 183.407

Médico especializado em Psiquiatria em Mogi das Cruzes e região do Alto Tietê. Com formação em Medicina, Educação Física e Psicologia, atende com escuta sem pressa e cuidado baseado em evidências. Atendimento presencial e por telemedicina.

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