Tricotilomania: Por Que Acontece e Como É o Tratamento | Dr. Thiago Westmann
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Tricotilomania: por que a pessoa arranca o próprio cabelo — e como é o tratamento

Arrancar fios do cabelo, das sobrancelhas ou dos cílios de forma repetida não é falta de força de vontade nem vaidade. É um transtorno reconhecido, com mecanismo conhecido e caminhos de tratamento com base científica. Entenda, sem rodeios.

Dr. Thiago Westmann
Dr. Thiago WestmannMédico especializado em Psiquiatria · CRM-SP 183.407 · ~10 min de leitura
Mulher observando os próprios cabelos — tricotilomania, transtorno de arrancar o cabelo

O que é a tricotilomania (e por que não é "mania")

A tricotilomania é o transtorno de arrancar o próprio cabelo. Apesar do "-mania" no nome, não tem relação com manias no sentido popular: é uma condição de saúde mental classificada pelo DSM-5-TR (o manual diagnóstico de referência em psiquiatria) no capítulo dos Transtornos Obsessivo-Compulsivos e Relacionados — ao lado do TOC, do transtorno dismórfico corporal e do transtorno de escoriação (o "skin picking", arrancar ou cutucar a pele). Na CID-11 da OMS, é o código 6B25.0.

Em termos práticos, o quadro envolve quatro coisas, segundo o DSM-5-TR: arrancar pelos de forma recorrente, a ponto de causar falhas perceptíveis; tentativas repetidas de reduzir ou parar; sofrimento ou prejuízo real na vida; e a exclusão de outras causas (médicas ou de outro transtorno).

1–2%das pessoas convivem com tricotilomania ao longo da vida — estimativa das referências em psiquiatria (DSM-5-TR).
10–13anos é a faixa de idade em que o quadro costuma começar, perto da puberdade.
Tem nome, tem explicação e tem tratamento. Reconhecer que se trata de uma condição de saúde — e não de um defeito de caráter — é o primeiro passo para buscar o cuidado certo.

Os dois padrões: focado e automático

Um ponto que ajuda muita gente a se entender: o comportamento de arrancar costuma acontecer de duas formas, que podem coexistir na mesma pessoa.

Isso explica por que "só tentar parar" raramente funciona: parte do comportamento acontece fora da consciência plena. O tratamento moderno leva isso em conta — e é justamente por isso que ele vai além da força de vontade.

Não é só cabelo: o espectro dos comportamentos repetitivos

A tricotilomania faz parte de um grupo maior, os BFRB (sigla em inglês para "comportamentos repetitivos focados no corpo"). O "vizinho" mais conhecido é o transtorno de escoriação (arrancar ou cutucar a pele). Os fios mais envolvidos costumam ser os do couro cabeludo, mas também sobrancelhas, cílios e barba.

Entender que existe um espectro importa por um motivo prático: é comum a pessoa ter mais de um desses comportamentos, e o tratamento é aparentado. Avaliar o conjunto, e não só o sintoma isolado, faz diferença.

Tricotilomania, TOC e TDAH: o que é parecido e o que é diferente

Duas das dúvidas mais comuns são "isso é TOC?" e "isso é TDAH?". A resposta honesta: são quadros aparentados, mas não a mesma coisa.

Por que isso importa para você? Porque o nome certo muda a conduta. É a avaliação individual que separa um do outro e define o caminho.

O que mais costuma vir junto

A tricotilomania frequentemente não vem sozinha. As condições mais associadas, descritas na literatura, são a depressão, os transtornos de ansiedade, o TOC e o TDAH. As taxas variam conforme o estudo e, por isso, devem ser lidas como faixas, não como números fixos.

Esse é um dos motivos centrais pelos quais a avaliação com um médico especializado em psiquiatria faz diferença: muitas vezes, tratar só o "arrancar" sem olhar para a ansiedade ou a depressão que o acompanham deixa o quadro pela metade.

O papel do psiquiatra e o diagnóstico diferencial

O acompanhamento começa por uma avaliação cuidadosa, sem pressa — um dos pilares do trabalho do Dr. Thiago. Um passo essencial é descartar outras causas de queda de cabelo antes de firmar o diagnóstico, idealmente em diálogo com a dermatologia:

Na tricotilomania, o exame costuma mostrar fios quebrados em comprimentos diferentes e uma área de formato irregular — um quadro distinto da alopécia areata, por exemplo. A avaliação também identifica o que acompanha o quadro (ansiedade, TOC, TDAH) e abre a conversa sobre o tratamento — sempre com decisão compartilhada. Nem todo caso precisa de medicação, e nada é definido sem que você entenda o porquê.

O que funciona: o tratamento comportamental

A intervenção mais estabelecida e mais bem embasada para a tricotilomania não é um remédio — é uma abordagem comportamental, dentro da terapia cognitivo-comportamental (TCC). A técnica central chama-se Treino de Reversão de Hábito (HRT, na sigla em inglês). Ela trabalha em três frentes: ajudar a pessoa a perceber quando e em que situações arranca, identificar os gatilhos e desenvolver uma resposta alternativa que compete com o ato de arrancar.

A pesquisa mais recente ampliou esse modelo. Duas abordagens se somam ao HRT:

O ponto que mais importa

A terapia comportamental tem o melhor resultado — e supera a medicação

As sínteses de estudos mostram que a abordagem comportamental tem um efeito grande sobre o comportamento de arrancar, claramente maior do que o dos medicamentos. Por isso ela é considerada a primeira linha de tratamento.

E a medicação? O que a ciência mostra

Aqui é preciso honestidade, porque há muita desinformação. Não existe, até hoje, nenhum medicamento aprovado pela ANVISA ou pelo FDA especificamente para a tricotilomania. Todo uso de medicação é o que se chama de "off-label" — fora da bula — e é uma decisão individual e criteriosa, feita pelo médico junto com o paciente.

O que a pesquisa mostra, de forma resumida:

A mensagem prática: medicação, quando entra, é apoio individualizado — não a estrela do tratamento. A estrela é a abordagem comportamental.

O cabelo volta a crescer? Um prognóstico honesto

Sim, em geral o cabelo tende a voltar a crescer quando o comportamento de arrancar cessa. Há uma ressalva importante: quando o arrancar se repete por muitos anos, pode haver dano permanente no folículo, com perda que não se recupera. É exatamente por isso que buscar ajuda cedo faz diferença.

Sobre "cura": o termo mais correto é controle e remissão. O curso da tricotilomania costuma ter altos e baixos quando não tratada — períodos melhores e piores. Com tratamento, muitas pessoas reduzem de forma significativa o comportamento e retomam a relação tranquila com a própria imagem. Não é promessa de perfeição; é um caminho de cuidado real.

Perguntas frequentes

Fala-se em controle e remissão. Com tratamento adequado, muitas pessoas reduzem bastante o comportamento; pode haver recaídas, e elas também são trabalhadas no acompanhamento.

Não. É uma condição reconhecida no DSM-5-TR, com base neurocomportamental — parte do comportamento acontece, inclusive, fora da consciência plena (o padrão "automático").

São aparentadas e ficam no mesmo grupo diagnóstico, mas não são iguais: na tricotilomania, em geral não há a obsessão cognitiva que precede os rituais do TOC.

Em geral sim, quando o arrancar cessa. Casos muito prolongados podem ter dano no folículo, o que é avaliado individualmente.

Pode, e o início costuma ser na infância ou adolescência. A abordagem comportamental é a base; no caso de medicação, vale lembrar que o que funcionou em adultos não se confirmou em crianças.

Não. Você pode procurar um médico especializado em psiquiatria diretamente.

Este conteúdo tem caráter informativo e educativo e não substitui a avaliação médica individual. Em conformidade com a Resolução CFM nº 2.336/2023. Se você está em sofrimento, procure ajuda — em caso de emergência, ligue para o CVV (188) ou o SAMU (192).
Dr. Thiago Westmann
Dr. Thiago Westmann
Médico especializado em Psiquiatria · CRM-SP 183.407

Médico especializado em Psiquiatria em Mogi das Cruzes e região do Alto Tietê. Com formação em Medicina, Educação Física e Psicologia, atende com escuta sem pressa e cuidado baseado em evidências. Atendimento por telemedicina.

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